terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Para que aprendas.

Hoje o amor é o sangue que engrossa
a sua pica
Amanhã não haverá mais pica, haverá uma pica sim amor
Mas
Ela não vai engrossar
E o amor então será mole e
tímido
Será o prato de comida que me serves
Meio frio, meia bomba
E depois de amanhã o amor será a tua viuvez ou
a minha
Que nos fará sentir falta do amor que inexistia
E das minhas inválidas tentativas para que aprendas
Que não se diz eu te amo na primeira noite
de delírio.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sobre os números

A minha cabeça de 4kg hoje pesa 8, 12, 16 kg podres das cinzas que cumpriram seu papel me calando a boca nos últimos anos e que continuarão a calar até que a garganta ultrapasse o limite da pele e se junte ao assoalho aos pedaços por silêncio câncer ou bala de fogo a minha cama maior que o corpo abriga um cheiro que não me cabe compreender, há mais de 20 anos sabem os lençóis que só eu me deito e reviro pernas e olhos e reviro óculos dos quais não precisava até ontem, até hoje até 3 anos atrás, mas é a sexo que remetem as minhas fronhas e a um sexo diferente do meu talvez da Marcela cor de pão, carne entre os dentes queridinha ela diria com suas unhas de formol era Cláudia a cafetina do século XXI bem menos charmosa que as do século XX serão robóticas as do século XXII, queria ela que eu me tornasse loura a fim de aumentar o movimento daqueles 4 quartos penso e sorrio os cantos enrugados da minha boca como eram pretos os meus pêlos e hoje virar loura não daria nenhum trabalho faz quanto tempo meu deus e eu pensava que deus era medo, não é medo não queridinha se você disser que nunca fez eu acredito duvido que deus seja os movimentos repetidos que deus são os nervos da tua pica que enerva porra a pesar de você dizer que é vida amor, vida não se ferve e eu só não entendo porque as janelas permanecem fechadas tornando cada vez mais forte o cheiro que habita esse quarto que só recebe meus chinelos de pano meu plano esquecido de me esquecer de ti

terça-feira, 8 de novembro de 2011

"Você deveria ter se segurado em alguma coisa, uma moda, um discurso, uma ideia de si mesma
-uma paixão que fosse- qualquer coisa,
um mito, um guru, uma política
uma revolução, uma mentira, sei lá,
alguma coisa pra se agarrar
talvez uma amiga como ela, um patamar
alguma coisa, antes de cair devagar pela janela."

domingo, 6 de novembro de 2011

quinta de cinzeiro e gelo

Trêmula segurava a caneca cor de laranja que quase transbordava de jasmim e quase aquietava os meus espasmos mau espasmos que inevitavelmente provocavam risadas confusas de duas vozes quase irmãs que me mostravam o oco e transpiravam a fala a falta de fala e o excesso de som de fúria e de cor. Na bubuia.
Eu demorava a tecer meus inventos desatentos a outra respiração. Os futuros olhos molhados de suor frio febre e desconforto buscaram dentro de si a cura da inércia. E não era nada. Do mesmo que o espelho permanece lotado que já nem pode abrir as penas as pernas. Sobre. Cai. Que queima em brasa acesa sem olhar a quem e descobre furos em seu cobertor de LÉOpardo calado. Fode absurdamente e muitos absurdos mais formam como as tintas vencidas na reforma e uma pergunta: O que é que eu faço aqui? Não aqui na sua casa especificamente eu sei que estávamos vendo o exorcista de que tinhas medo e por isso minha mão apertavas mas o que é que eu faço aqui mesmo? Transbordo gás de cozinha e em cada frase que cuspo cai um pouquinho de ácido e cinza e já está quase tudo pronto só falta passar meu café sem açúcar na tua meia limpa e atravessar a passarela.

sábado, 22 de outubro de 2011

Coleções

Tinha cheiro de Marlboro red e um gosto de mel proposital de quem come quase tudo com isso. Até as balas nas quais pareceu ser viciada tinham esse mesmo sabor. Era assim meio bruxa no olhar que paralisava e na voz macia, doce demais pra uma mulher. Quase azul.
Mas estava vestida de preto. Talvez fosse uma jovem viúva, eu pensei, porque carregava nas marcas do rosto um pouquinho de tristeza, quase imperceptível enquanto alinhava os cabelos escuros com as mãos tão jovens e brancas.  Ela era contraste.
E me perguntou o nome e o signo, assim, logo nos primeiros minutos. A minha cabeça bêbada chegou a imaginar que ela fosse uma dessas mulheres que verificam compatibilidade amorosa antes de dar. Eu não a conhecia.
Falamos de coisas banais, mas o seu vocabulário fazia tudo parecer mais requintado, mais único. Ela parecia ver beleza até no cinzeiro de metal, naquele copinho pequeno onde só se servem doses, nas balas de mel que quase me fizeram vomitar e nas músicas clichês que tocavam.
Cassandra, era o seu nome. Mas ao contrário da outra, essa era culpada pelas tragédias que previa. Ela provocava...
A música alta nos fazia chegar cada vez mais perto um do outro a princípio com o pretexto de sustentar um diálogo e depois sem mais pretextos.
Ela me guiou até sua casa que convenientemente não era muito longe dali. E nem por um minuto eu parava de me sentir orgulhoso por ter sido escolhido. Tecia planos, ensaiava frases, imaginava encontros. Pensava na cara dos meus amigos quando vissem que eu- que sempre fora tímido e franzino- havia sido escolhido por aquela mulher, que agora estava estranhamente muda e seca, mas deveriam ser os conhaques, sim deveriam. Não eram.
Sua casa cheirava a incenso e era cheia de tapetes. A cama era macia. A pele era húmida. O mel saía pelos poros, pela língua, pelos seios, pela boceta. Eu mal tinha acabado de gozar quando ela se levantou e acendeu com fósforos o último cigarro. Não tive coragem de dizer nada, com medo de parecer estúpido e estragar a beleza do seu rosto tranquilo, do seu corpo macio e á vontade perto da janela. Acabei dormindo.
Quando acordei ela não estava ao meu lado. Procurei na mesa de cabeceira por algum de seus fósforos, mas só encontrei cigarros. Me vesti, esquecendo de propósito o casaco, a guisa de desculpas pra voltar lá. Foi quando escutei o barulho do chuveiro e fiquei aliviado por ela estar em casa. Não achei apenas os fósforos, mas um caderno grosso, de capa bonita, desconfio que feita a mão. Resolvi folhear. Toda mulher tem um caderno desses, agenda, diário, qualquer coisa... Demorei um pouco a entender do que se tratava, mas quando lembrei da noite anterior, eu tive certeza.
No caderno havia o nome e o signo de pelo menos 400 homens com quem ela havia dormido no último ano. O chuveiro desligou, e eu, como se tivesse culpa  saí correndo na rua, o sol penetrou a minha cabeça como se fosse uma espada, mas era tão familiar essa ressaca, o que não me era familiar, essa minha vontade de correr e esquecer que havia estado lá. Nunca me esqueci. Nunca mais voltei também, e me pergunto se ela lembra de quem é aquele casaco que apareceu de um dia pro outro entre os travesseiros.

sábado, 15 de outubro de 2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O boi ou A descarada





Meu caro amigo, é primordial que você me entenda, ainda que não compactue com os meus atos, eu sei que é monstruoso, eu sei, caríssimo, mas escute bem: Acho absolutamente necessário dividir isso aqui, pela última vez. Fique onde está, não chame ninguém e não tente me impedir, vai ser muito pior.
Eu sou um médico, compreende? Um médico que vê coisas terríveis diariamente. Aqui, o Juís diria que com esse relato eu pretendo alegar uma insanidade que não existe, mas eu realmente espero que você entenda, e entenderá com o meu gesto que eu não quero a redenção. Esse relato não espera resposta judicial, caríssimo. Haverá tempo, não se preocupe. Ainda tenho alguns minutos. Pois então, retomando. Eu sou um médico legista. Meu pai sempre me indagou sobre o porquê de escolher essa profissão, entre tantas áreas disponíveis na medicina. Acho que o sonho dele era que eu descobrisse a cura do câncer, doença que devasta a todos, há tantos anos. Mas eu nunca quis descobrir a cura de nada, compreende? Já explico, eu explico. Sempre me interessou o póstumo, ainda menino eu me acostumei com o cheiro da carne em putrefacção e, na faculdade, as aulas que mais me interessaram eram as de medicina legal. Olhando tudo agora como aconteceu, acho que o que eu sempre quis na verdade foi ser um grande promotor ou juís. Acho.
Como ia dizendo, eu sou acostumado a ver coisas incomuns ao cotidiano da maioria das outras pessoas.  Exames de corpo e delito, onde muitas vezes constatei friamente, estupro e violência doméstica. Digo friamente porque sou um profissional, e como tal, nunca levei pra casa os casos nos quais trabalhei. Nunca, excetuando semana passada, e digo isso com muito orgulho, pra que você perceba que não, eu não sou um psicopata, um doente mental. Eu tenho toda a capacidade de discernir o que é certo e o que é errado e eu o fiz brava e honestamente ao longo desses 20 anos de carreira.
Pois bem. A essa altura da minha vida e nesse dia que desconfio que seja o último, eu não tenho receio de afirmar espero que o senhor compreenda o que eu quero dizer.  É que sim, eu achava que já tinha visto todas as misérias possíveis.  E tinha. O que eu vi na semana passada e  que afetou dramaticamente o curso da minha vida, aquilo  não foi uma miséria.  Talvez tenha sido- e eu acredito mesmo nisso- anticonvencional, mas eu não me culpo, nem a minha mão, nem a quebra desse sacerdócio infeliz e degradante que é o do médico, ainda pior que o de padre, porque eu nunca ouvi dizer que os padres tenham que ver mulheres nuas e violadas todos os dias no seu trabalho. Pode até ser que aconteça mas eu nunca ouvi falar. O senhor já ouviu?
Era imoral a forma que as mulheres abriam as pernas  como reagiam ao toque do meu dedo. A maioria delas havia acabado de ser estuprada, muitas vezes não só por um homem, mas por vários, e elas reagiam a um toque mínimo, obrigatório e delicado do meu dedo. Lembro-me de uma que gemeu, pedindo que eu mexesse o meu dedo dentro dela, e movimentando o quadril para que entrasse mais fundo. Porque eu conto tudo isso agora? Pra que você compreenda que nem nessa situação eu saí do meu gélido jaleco branco.  Tive ética acima de tudo. Eu quero que uma última pessoa me escute. Eu preciso falar, eu preciso. Pois bem.  Eu quero registrar também que as mortas, as mortas nunca me interessaram. Haviam alguns colegas meus que se interessavam por elas, mas eu, nunca. Sempre achei desagradável o contacto com a pele fria e dura e a secura das mortas, a sua indiferença. Além do mais tinha o cheiro. Aquele cheiro que me fazia lembrar da minha infância, quando eu me acostumei com a carne apodrecendo, o congelador cheio de sangue depois que minha mãe morreu e meu pai entrou em depressão. Eles haviam matado um boi há pouco tempo, a geladeira estava cheia, mas o meu pai dormiu por uma semana. E eu, eu não tinha altura suficiente pra limpar a geladeira, eu convivi com aquele cheiro que - eu ainda não sabia- ia me acompanhar por toda vida. Mas isso não importa. O que importa foi aquele dia, semana passada.  Aquele dia, eu me lembro muito bem. Estava frio, os pêlos do meu braço estavam arrepiados quando ela entrou no consultório e eu senti atrás do pescoço o mesmo arrepio. Quando ela abriu as pernas, eu vi em seu púbis o mesmo arrepio, uns pelinhos em pé, tão poucos pelinhos meu deus...  Não coloquei a luva, queria sentir a textura daquela carne. Tremula, imaculada. E quando eu coloquei a mão e senti, ouvi a respiração dela ofegar, os olhos se fecharem, eu não tive dúvidas. Senti que tinha sido recentemente deflorada e isso excitou de forma ultrajante o grande e imortal monstro que há tanto tempo dormia dentro de mim.  Eu não só a violei como me encantei por ela, pelo seu cheiro, pelo seu rosto, pela sua voz. Enlouqueci atrás de seu prontuário,onde estariam dados como o seu telefone que foi quando eu consegui ouvir a sua voz. Durante dias, liguei em sua casa só pra escutar a sua voz. Primeiro curiosa e depois brava e logo em seguida sorridente e preguiçosa. Levei uma semana pra ter coragem de falar do meu interesse em revê-la. Senti que a sua voz estava confusa, tremula, mas no fim ela cedeu. Era pouco o que eu precisava,apenas um dia era o que eu queria, ainda que para isso tivesse que morrer. E ela me deu. Mas quando eu cheguei lá-vejam só, caríssimos, como fui munido de inocência, a inocência de uma criança de 12 anos, como ela...-era uma emboscada, e eu ouvi sirenes, senti que me revistavam, mas me transportei pra longe dali, não por vontade própria, mas por instinto. Me transportei pra uma terra distante, onde existia apenas o cheiro doce e infantil dos seus cabelos, para sempre. E é lá que eu pretendo descansar agora,  depois que esse cordão terminar de sugar todo o espaço livre da minha garganta, e que dos meus olhos desça a última lágrima salgada, é lá que eu quero passar a eternidade. Em uma maca de metal, com o cheiro doce dos seus cabelos molestados.