Eu estou grávida. Não fiz exame e nem precisa.Só vim aqui hoje porque tive um sangramento e fiquei meio assim. Mas eu sinto ele aqui. Mais vivo do que eu. Sabe, eu já preciso dele pra viver. Antes eu não tinha sentido, não tinha por que. Mas ele me torna real. Sentir que ele vive e se mexe despertou meu corpo cansado de tanto tédio, de tanta dor, de tanto marasmo. Nas identidades e certidões que eu queimei, noticiavam a minha idade em 18 anos. Uma mentira sem igual. Não caberiam tantas coisas em 18 anos. Minha maior constatação: documentos mentem.
O meu filho vai ser homem, eu já sei, nem precisa confirmar. Anota aí, ó: Benjamin. É lindo, né? Benjamin...
Ele vai ser pequeno, ainda não cresceu muito. Há dias em que parece não estar aqui. Mas ele está. Sempre se mostra, adivinha meus pensamentos, o meu pequeno e lindo.
Não, porra! Eu já disse que ele não tem pai. Ele é meu,virá só pra mim.Veio já.
Penso em como eu era idiota quando defendia o direito de abortar. Que se danem todas as feministas que prezam por uma liberdade que nunca vai existir, a liberdade de ser seca. Chula. Vazia.
Eu estou com fome. Dobrei a minha alimentação desde que engravidei do meu pequeno.Tô certa, né? Quero ele saudável... Já tenho dúzias de roupinhas, todas brancas, limpas. Ele me limpa.Como eu soube? De novo isso, mas eu já disse, meu deus. Você quer me deixar nervosa, né? Você quer que eu perca o meu bebê! Médicas, todas as médicas são iguais, vocês só querem saber de dinheiro, são umas egoístas, todas loucas dentro dessa porra de hospital. TODAS LOUCAS! Que injeção é essa? É pra eu perder meu bebê, não é? Isso aqui é um complô, essa merda é um complô!
- Marina, você é estéril.

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