sábado, 22 de outubro de 2011

Coleções

Tinha cheiro de Marlboro red e um gosto de mel proposital de quem come quase tudo com isso. Até as balas nas quais pareceu ser viciada tinham esse mesmo sabor. Era assim meio bruxa no olhar que paralisava e na voz macia, doce demais pra uma mulher. Quase azul.
Mas estava vestida de preto. Talvez fosse uma jovem viúva, eu pensei, porque carregava nas marcas do rosto um pouquinho de tristeza, quase imperceptível enquanto alinhava os cabelos escuros com as mãos tão jovens e brancas.  Ela era contraste.
E me perguntou o nome e o signo, assim, logo nos primeiros minutos. A minha cabeça bêbada chegou a imaginar que ela fosse uma dessas mulheres que verificam compatibilidade amorosa antes de dar. Eu não a conhecia.
Falamos de coisas banais, mas o seu vocabulário fazia tudo parecer mais requintado, mais único. Ela parecia ver beleza até no cinzeiro de metal, naquele copinho pequeno onde só se servem doses, nas balas de mel que quase me fizeram vomitar e nas músicas clichês que tocavam.
Cassandra, era o seu nome. Mas ao contrário da outra, essa era culpada pelas tragédias que previa. Ela provocava...
A música alta nos fazia chegar cada vez mais perto um do outro a princípio com o pretexto de sustentar um diálogo e depois sem mais pretextos.
Ela me guiou até sua casa que convenientemente não era muito longe dali. E nem por um minuto eu parava de me sentir orgulhoso por ter sido escolhido. Tecia planos, ensaiava frases, imaginava encontros. Pensava na cara dos meus amigos quando vissem que eu- que sempre fora tímido e franzino- havia sido escolhido por aquela mulher, que agora estava estranhamente muda e seca, mas deveriam ser os conhaques, sim deveriam. Não eram.
Sua casa cheirava a incenso e era cheia de tapetes. A cama era macia. A pele era húmida. O mel saía pelos poros, pela língua, pelos seios, pela boceta. Eu mal tinha acabado de gozar quando ela se levantou e acendeu com fósforos o último cigarro. Não tive coragem de dizer nada, com medo de parecer estúpido e estragar a beleza do seu rosto tranquilo, do seu corpo macio e á vontade perto da janela. Acabei dormindo.
Quando acordei ela não estava ao meu lado. Procurei na mesa de cabeceira por algum de seus fósforos, mas só encontrei cigarros. Me vesti, esquecendo de propósito o casaco, a guisa de desculpas pra voltar lá. Foi quando escutei o barulho do chuveiro e fiquei aliviado por ela estar em casa. Não achei apenas os fósforos, mas um caderno grosso, de capa bonita, desconfio que feita a mão. Resolvi folhear. Toda mulher tem um caderno desses, agenda, diário, qualquer coisa... Demorei um pouco a entender do que se tratava, mas quando lembrei da noite anterior, eu tive certeza.
No caderno havia o nome e o signo de pelo menos 400 homens com quem ela havia dormido no último ano. O chuveiro desligou, e eu, como se tivesse culpa  saí correndo na rua, o sol penetrou a minha cabeça como se fosse uma espada, mas era tão familiar essa ressaca, o que não me era familiar, essa minha vontade de correr e esquecer que havia estado lá. Nunca me esqueci. Nunca mais voltei também, e me pergunto se ela lembra de quem é aquele casaco que apareceu de um dia pro outro entre os travesseiros.

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